sexta-feira, 6 de julho de 2018

ANGÚSTIA EM FILOSOFIA E PSICANÁLISE


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO – UFES
ESPECIALIZAÇÃO EM FILOSOFIA E PSICANÁLISE
DISCIPLINA: Angústia em Filosofia e Psicanálise.
Módulo III: Avaliação Final: A Angústia em Lacan Heidegger e Kierkegaard.
ALUNO: Jacques Antonio Contarini Pereira
PÓLO: Castelo – ES
TUTORA: Cynthia A. Gonçalves

A Angústia em Lacan

A angústia como observa Lacan é “aquilo que não engana” (Lacan, 2004 [1963], p.92). Essa é a definição de angústia para o psicanalista Lacan. Porém têm-se outras definições como: a sensação de vazio, o aperto no íntimo do ser e etc. Todas essas sensações são classificadas como angústia, ou seja, é algo real que pode ocorrer com o indivíduo. Não há uma distinção para se estabelecer suas causas.
 Para os psiquiatras o sujeito angustiado necessita de cuidados médicos, pois para esses profissionais as disfunções são causadas por problemas bioquímicos ou genéticos, e devem ser tratados com remédios e assim, se resolve tudo (MURTA, 2017, p.7).
Para Lacan a angústia é um afeto e diferente de emoção.  O afeto não é uma emoção.  Na psicanálise procura afastá-los da proposta de análise psicofisiológica e procura aproximar-se da filosofia. O mesmo ocorrendo em relação ao afeto da angústia. O afeto ainda traduz a presença de um sujeito em suas relações constitutivas com a linguagem.  É a expressão do sujeito afetado sem possibilidade de reparo em sua desadaptação originária, no desamparo enquanto ser de linguagem (MURTA, 2017, p. 8 e10).
No pensamento de Lacan a angústia é o afeto próprio do sujeito, o afeto estruturante da existência, e a psicanálise não propõem a cura da angústia por meio de recursos de uma racionalidade instrumental, mas a angustia é uma feto do sujeito implicado em seu sofrimento, na sua singularidade, com um saber a partir de sua relação com a linguagem, enquanto sujeito afetado pela palavra e implicado em um dizer (MURTA, 2017, p.11).
A angústia lacaniana é uma via de acesso ao objeto a que causa o desejo. Em seu conceito a angustia está aquém do desejo, afirma ainda o verdadeiro objeto causa do desejo está atrás e não na frente do desejo (MURTA, 2017, p. 17)
Por fim, Lacan discute a angústia como uma alternativa à Aufhebung (é a palavra dialética que se desvela no sentido de negar) para evidenciar aquilo que escapa à Aufhegung, aquilo que não é significável, que constitui resto de toda significação (MURTA, 2017, p. 40).

A Angústia em Heidegger

No pensamento de Heidegger a angústia é interpretada como uma disposição fundamental que promove uma abertura privilegiada de nossa existência. Essa disposição significa humor, que de certa forma nos dispõe no que somos. Existimos sempre afinados em um humor que completa o sentido do que aparece. Nada aparece sem o humor. O primeiro a fazer essa afirmação foi Aristóteles, que mostrou como a realidade sempre aparece em uma disposição de humor (PESSOA, 2017, p. 21).
Heidegger pensa a disposição da angústia a partir da desconstrução da metafísica; desconstruir significa um duplo movimento destruir e construir, isto é uma destruição da interpretação ontológica da tradição filosófica a fim de reconstruir a questão do ser num horizonte de pensamento que não é mais metafísico (PESSOA, 2017, p. 21).
Nesse sentido, Heidegger mostra como a angústia é uma disposição fundamental e que essa promove uma abertura privilegiada de nosso ser, esclarece a sua dimensão ontológica e existencial, esse ainda contrapõe a angústia ao medo que de certa forma acabam sendo confundidas. Procura distinguir angústia do medo destacando a diferença entre um e o outro. O que faz sentir angústia? O que faz sentido medo? O medo é algo amedrontador é sempre a aproximação de um ente que nos ameaça, que quer nos prejudicar, nos deixa temerosos com o que poderá nos ocorrer, indica a proximidade do risco, do perigo que estamos correndo. O medo é sempre uma disposição que ocorre em algumas situações, seja por receio, pavor, acanhamento, timidez, terror, etc. o medo é o que se torna uma ameaça. Já a angústia, essa é inteiramente indeterminada, na angústia os entes que nos cercam tornam-se insignificantes e na insignificância das circunstâncias em que estamos, sobrevém o nada, o abismo de possibilidade do ser. A angústia revela o nada. Isso significa que o ente tem tão pouca importância que somente o mundo se impõe em sua mundanidade (PESSOA, 2017, p. 30).
A angústia revela a singularidade de nossa existência, a propriedade do nosso sentido de ser. Só na angústia existe a possibilidade de uma abertura privilegiada, uma vez que ela singulariza, retira a presença de sua decadência e revela a possibilidade do ser. Essa revela ainda o nosso próprio ser, nossa liberdade de ser o que somos, ela nos dá liberdade de vivermos o nosso próprio destino e decidirmos qual é o sentido da nossa existência. (PESSOA, 2017, p. 30).
Portanto, conclui-se que no pensamento de Heidegger a angústia é entendida como uma disposição privilegiada tanto no sentido ontológico, como via de acesso para uma compreensão do ser, quanto no sentido existencial, por restituir a propriedade de nosso modo de ser. Essas duas disposições: o ontológico e o existencial compõem o novo horizonte de pensamento proposto por Heidegger: o ser não é um ente, e nós precisamos compreendê-lo em uma experiência original de nossa existência, diferente dos conceitos tradicionais dos juízos metafísicos (voltados para a essência) e a angústia é essa via que proporciona uma real transformação existencial (PESSOA, 2017, p. 30).

A Angústia em Kierkegaard

Pensador religioso assume o debate em oposição a Hegel, de quem sempre foi crítico e com quem debateu durante toda a sua vida. O tema que estava no centro dos debates era a religião e a crise no cristianismo, pois Hegel pensava que tinha resolvido o problema entre a religião e o mundo moderno, provocado pelo iluminismo e pela Revolução Francesa, pensava ainda que havia restabelecido o equilíbrio  na religião dando ao cristianismo o lugar de religião perfeita.  No entanto, para Kierkegaard o importante não é encontrar a verdade objetiva, mas a verdade subjetiva do indivíduo e apresenta um cristianismo verdadeiro, não orientado pela filosofia especulativa, catedrática e distante do indivíduo, mas direcionado no sentido subjetivo da interioridade, parte do princípio que; “Deus se encontra com o individuo, e este encontro a razão não alcança”.  Não se alcança Deus pela razão, e uma questão de vocação, que só pode ser entendia pela fé (MURTA, 2017, p. 34).
A discussão entre Hegel e Kierkegaard é longa no que se refere à questão do cristianismo, sempre em oposição um do ouro. No pensamento de Kierkegaard tudo que era imanente entre humano e divino em Hegel foi rompido com o pecado e também pela graça, o sentimento de pecado é sempre conservado. O pecado é tratado no conceito de angústia, no entanto o pecado, da mesma forma a angústia podem não serem um conceito. Pois um conceito é um objeto de estudo para uma ciência e o pecado e a angústia não são objeto de estudo da ciência. O pecado não é um objeto de pensamento, ele é individual, positivo, transcendente, descontínuo. Sua descontinuidade se mostra pela via do salto. Tudo que é novo surge pela via do salto e de forma inesperada. Em seu conceito esse propõe examinar a angústia pela via do pecado. Onde o pecado se impõe como afirmação da singularidade do indivíduo apresentado-se como salto qualitativo ( MURTA, 2017, p. 36 e 37).
O ponto de partida do conceito de angústia em Kierkegaard é a análise da história de Adão e Eva, a cada geração ele se renova, uma reflexão sobre a falta, uma releitura da história do pecado original. O centro do pecado original é a angústia. Essa aparece como conseqüência das diferentes formas que a negatividade se apresenta diante  a queda pelo pecado original.  O pecado faz o homem perder a condição original de inocência ou ignorância (MURTA, 2017, p. 37).
A angústia é simpatia antipática e antipatia simpática, ela é o limite entre inocência e o pecado, pois o pecado se dá no instante que é a angústia. E nesse fenômeno da angústia se revela a positividade do nada. Esse se apresenta no momento em que ainda não se é culpado, mas já se perdeu a inocência (MURTA, 2017, p. 38).
Conclui-se que todo homem após Adão sente angústia, pois ele representa toda a espécie humana, embora todo o pecado seja individual, mas ao mesmo tempo está registrado na espécie humana. Kierkegaard postula que; “todo homem é angustiado, mesmo o mais feliz de todos. A angústia é característica humana. Quanto maior é a sua angústia, mais humanizado se torna o homem” (MURTA, 2017 p. 38).


Referência Bibliográfica:
MURTA, Cláudia. Angústia em filosofia e psicanálise/ Cláudia Murta, Fernando Pessoa – Dados eletrônicos – Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Secretaria de Ensino a Distância, 2017.

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