ESPECIALIZAÇÃO EM FILOSOFIA E PSICANÁLISE
DISCIPLINA: Angústia em
Filosofia e Psicanálise.
Módulo III: Avaliação
Final: A Angústia em Lacan Heidegger e Kierkegaard.
ALUNO: Jacques Antonio
Contarini Pereira
PÓLO: Castelo – ES
TUTORA: Cynthia A. Gonçalves
A Angústia em Lacan
A
angústia como observa Lacan é “aquilo que não engana” (Lacan, 2004 [1963],
p.92). Essa é a definição de angústia para o psicanalista Lacan. Porém têm-se
outras definições como: a sensação de vazio, o aperto no íntimo do ser e etc.
Todas essas sensações são classificadas como angústia, ou seja, é algo real que
pode ocorrer com o indivíduo. Não há uma distinção para se estabelecer suas
causas.
Para os psiquiatras o sujeito angustiado necessita
de cuidados médicos, pois para esses profissionais as disfunções são causadas
por problemas bioquímicos ou genéticos, e devem ser tratados com remédios e
assim, se resolve tudo (MURTA, 2017, p.7).
Para
Lacan a angústia é um afeto e diferente de emoção. O afeto não é uma emoção. Na psicanálise procura afastá-los da proposta
de análise psicofisiológica e procura aproximar-se da filosofia. O mesmo
ocorrendo em relação ao afeto da angústia. O afeto ainda traduz a presença de
um sujeito em suas relações constitutivas com a linguagem. É a expressão do sujeito afetado sem
possibilidade de reparo em sua desadaptação originária, no desamparo enquanto
ser de linguagem (MURTA, 2017, p. 8 e10).
No
pensamento de Lacan a angústia é o afeto próprio do sujeito, o afeto
estruturante da existência, e a psicanálise não propõem a cura da angústia por
meio de recursos de uma racionalidade instrumental, mas a angustia é uma feto
do sujeito implicado em seu sofrimento, na sua singularidade, com um saber a
partir de sua relação com a linguagem, enquanto sujeito afetado pela palavra e
implicado em um dizer (MURTA, 2017, p.11).
A
angústia lacaniana é uma via de acesso ao objeto
a que causa o desejo. Em seu conceito a angustia está aquém do desejo,
afirma ainda o verdadeiro objeto causa do desejo está atrás e não na frente do
desejo (MURTA, 2017, p. 17)
Por
fim, Lacan discute a angústia como uma alternativa à Aufhebung (é a
palavra dialética que se desvela no sentido de negar) para evidenciar aquilo que escapa à Aufhegung, aquilo que não é
significável, que constitui resto de toda significação (MURTA, 2017, p. 40).
A Angústia em Heidegger
No
pensamento de Heidegger a angústia é interpretada como uma disposição
fundamental que promove uma abertura privilegiada de nossa existência. Essa
disposição significa humor, que de certa forma nos dispõe no que somos.
Existimos sempre afinados em um humor que completa o sentido do que aparece.
Nada aparece sem o humor. O primeiro a fazer essa afirmação foi Aristóteles,
que mostrou como a realidade sempre aparece em uma disposição de humor (PESSOA,
2017, p. 21).
Heidegger
pensa a disposição da angústia a partir da desconstrução da metafísica;
desconstruir significa um duplo movimento destruir e construir, isto é uma
destruição da interpretação ontológica da tradição filosófica a fim de
reconstruir a questão do ser num horizonte de pensamento que não é mais
metafísico (PESSOA, 2017, p. 21).
Nesse
sentido, Heidegger mostra como a angústia é uma disposição fundamental e que
essa promove uma abertura privilegiada de nosso ser, esclarece a sua dimensão
ontológica e existencial, esse ainda contrapõe a angústia ao medo que de certa
forma acabam sendo confundidas. Procura distinguir angústia do medo destacando
a diferença entre um e o outro. O que faz sentir angústia? O que faz sentido
medo? O medo é algo amedrontador é sempre a aproximação de um ente que nos
ameaça, que quer nos prejudicar, nos deixa temerosos com o que poderá nos
ocorrer, indica a proximidade do risco, do perigo que estamos correndo. O medo
é sempre uma disposição que ocorre em algumas situações, seja por receio,
pavor, acanhamento, timidez, terror, etc. o medo é o que se torna uma ameaça.
Já a angústia, essa é inteiramente indeterminada, na angústia os entes que nos
cercam tornam-se insignificantes e na insignificância das circunstâncias em que
estamos, sobrevém o nada, o abismo de possibilidade do ser. A angústia revela o
nada. Isso significa que o ente tem tão pouca importância que somente o mundo
se impõe em sua mundanidade (PESSOA, 2017, p. 30).
A
angústia revela a singularidade de nossa existência, a propriedade do nosso
sentido de ser. Só na angústia existe a possibilidade de uma abertura
privilegiada, uma vez que ela singulariza, retira a presença de sua decadência e
revela a possibilidade do ser. Essa revela ainda o nosso próprio ser, nossa
liberdade de ser o que somos, ela nos dá liberdade de vivermos o nosso próprio
destino e decidirmos qual é o sentido da nossa existência. (PESSOA, 2017, p.
30).
Portanto,
conclui-se que no pensamento de Heidegger a angústia é entendida como uma
disposição privilegiada tanto no sentido ontológico, como via de acesso para
uma compreensão do ser, quanto no sentido existencial, por restituir a
propriedade de nosso modo de ser. Essas duas disposições: o ontológico e o
existencial compõem o novo horizonte de pensamento proposto por Heidegger: o
ser não é um ente, e nós precisamos compreendê-lo em uma experiência original
de nossa existência, diferente dos conceitos tradicionais dos juízos
metafísicos (voltados para a essência) e a angústia é essa via que proporciona
uma real transformação existencial (PESSOA, 2017, p. 30).
A Angústia em Kierkegaard
Pensador
religioso assume o debate em oposição a Hegel, de quem sempre foi crítico e com
quem debateu durante toda a sua vida. O tema que estava no centro dos debates
era a religião e a crise no cristianismo, pois Hegel pensava que tinha
resolvido o problema entre a religião e o mundo moderno, provocado pelo
iluminismo e pela Revolução Francesa, pensava ainda que havia restabelecido o equilíbrio na religião dando ao cristianismo o lugar de
religião perfeita. No entanto, para Kierkegaard
o importante não é encontrar a verdade objetiva, mas a verdade subjetiva do
indivíduo e apresenta um cristianismo verdadeiro, não orientado pela filosofia
especulativa, catedrática e distante do indivíduo, mas direcionado no sentido
subjetivo da interioridade, parte do princípio que; “Deus se encontra com o
individuo, e este encontro a razão não alcança”. Não se alcança Deus pela razão, e uma questão
de vocação, que só pode ser entendia pela fé (MURTA, 2017, p. 34).
A
discussão entre Hegel e Kierkegaard é longa no que se refere à questão do
cristianismo, sempre em oposição um do ouro. No pensamento de Kierkegaard tudo
que era imanente entre humano e divino em Hegel foi rompido com o pecado e
também pela graça, o sentimento de pecado é sempre conservado. O pecado é
tratado no conceito de angústia, no entanto o pecado, da mesma forma a angústia
podem não serem um conceito. Pois um conceito é um objeto de estudo para uma
ciência e o pecado e a angústia não são objeto de estudo da ciência. O pecado
não é um objeto de pensamento, ele é individual, positivo, transcendente,
descontínuo. Sua descontinuidade se mostra pela via do salto. Tudo que é novo
surge pela via do salto e de forma inesperada. Em seu conceito esse propõe
examinar a angústia pela via do pecado. Onde o pecado se impõe como afirmação
da singularidade do indivíduo apresentado-se como salto qualitativo ( MURTA,
2017, p. 36 e 37).
O
ponto de partida do conceito de angústia em Kierkegaard é a análise da história
de Adão e Eva, a cada geração ele se renova, uma reflexão sobre a falta, uma
releitura da história do pecado original. O centro do pecado original é a
angústia. Essa aparece como conseqüência das diferentes formas que a
negatividade se apresenta diante a queda
pelo pecado original. O pecado faz o
homem perder a condição original de inocência ou ignorância (MURTA, 2017, p. 37).
A
angústia é simpatia antipática e antipatia simpática, ela é o limite entre
inocência e o pecado, pois o pecado se dá no instante que é a angústia. E nesse
fenômeno da angústia se revela a positividade do nada. Esse se apresenta no
momento em que ainda não se é culpado, mas já se perdeu a inocência (MURTA,
2017, p. 38).
Conclui-se
que todo homem após Adão sente angústia, pois ele representa toda a espécie
humana, embora todo o pecado seja individual, mas ao mesmo tempo está
registrado na espécie humana. Kierkegaard postula que; “todo homem é
angustiado, mesmo o mais feliz de todos. A angústia é característica humana. Quanto
maior é a sua angústia, mais humanizado se torna o homem” (MURTA, 2017 p.
38).
Referência Bibliográfica:
MURTA,
Cláudia. Angústia em filosofia e
psicanálise/ Cláudia Murta, Fernando Pessoa – Dados eletrônicos – Vitória:
Universidade Federal do Espírito Santo, Secretaria de Ensino a Distância, 2017.
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